Por Marco Aurélio Zimmermann, presidente da AICCA.
Todos nós, ou pelo menos a maioria de nós, começou a beber cerveja com as tradicionais "pilsens" comerciais brasileiras. E são poucos os que realmente gostaram da sua experiência inicial com cerveja. Bebíamos por diversão, para fazer parte da turma... Mas nos acostumamos e passamos a adorar cerveja. Ela passou a fazer parte dos momentos mais divertidos da nossa juventude, e aguardávamos com ansiedade a sexta-feira para bebermos o líquido precioso. Mas nos acostumamos demais com as cervejas "normais".
Então, um dia chega um amigo e oferece uma cerveja "estranha". "Humm, que diferente... não parece cerveja normal... É boa!". Ou então "Isso não é cerveja, cerveja é a (qualquer nome terminado em "ol", "ma", "ca", "in", "ser"...)". Bem, as reações são diversas, mas o que importa é que percebemos que estamos diante de algo diferente.
Aqueles mais curiosos vão tentar descobrir o que há de diferente nestas cervejas estranhas, e quando voltarem a beber aquelas cervejas de outrora, vão sentir falta de algo.
Eu vi isto acontecer muitas vezes nos últimos anos. Já ofereci cervejas "estranhas" para muitos amigos meus, e a maioria deles não voltou a tomar as cervejas de antigamente.
E por que isto acontece?
Bem, aqueles que já estão iniciados já sabem a resposta. Mas quem ainda não teve esta sorte, deve olhar para nós com certa desconfiança. "O que? Pagar tudo isto por uma cerveja? Vocês são loucos!". É, somos loucos por sabor, por qualidade, por prazer, por variedade... São tantas coisas que estas cervejas diferentes podem nos oferecer que não ligamos se temos que pagar um pouco mais por elas.
Mas por que elas são diferentes?
A cerveja é uma bebida muito antiga, e durante todos os milhares de anos em que o homem a tem produzido, surgiram inúmeras receitas, e os métodos de produção foram evoluindo, assim como o conhecimento do homem acerca de sua fabricação Em uma espécie de seleção artificial a là Darwin, em um tempo em que o capitalismo ainda estava longe fazer parte do mundo da cerveja*, as melhores receitas e os melhores métodos de fabricação "sobreviveram". E o Brasil vivenciou isto. Até meados do século XX, podia-se beber muita cerveja de qualidade por aqui, muitas produzidas por pequenas fábricas nas redondezas de nossas casas.
Porém, o século XX misturou dinheiro com cerveja, e o resultado, como todos podemos imaginar, não poderia ser lá muito agradável. Em busca de maiores lucros, as cervejarias começaram a substituir o malte de cevada, por exemplo, por alternativas mais baratas. Entraram em jogo os adjuntos cervejeiros**, milho e arroz na maioria dos casos, que não agregam sabor nenhum à cerveja, muito pelo contrário. Além disto, para aumentar a durabilidade do produto, o que permitiu estocar cerveja por muito mais tempo, optaram pela adição de substâncias químicas como "antioxidantes ins 316, estabilizante ins 405, acidulante inss 270". Estes recursos permitiram às cervejarias produzirem mais cerveja por um valor bem menor, ou seja, maiore$ lucro$. E quanto aos outros estilos?
Bem, é natural que no mundo todo beba-se mais cervejas claras, muitas vezes chamadas erroneamente de pilsen. Mas por que só este estilo? Fácil, pois é mais barato e mais fácil fazer só um estilo! Pronto, outra receita para aumentar os lucros, fazer só um tipo de cerveja, que agrade à maioria dos consumidores. Como disse uma vez um ex-funcionário de uma grande cervejaria: "O produto principal de uma grande cervejaria não é cerveja, é dinheiro".
Bem, é aí que entra o diferencial das cervejas artesanais e especiais. Estas cervejas são produzidas sem as artimanhas criadas pelas cervejarias modernas para gerarem maiores lucros. Elas são produzidas como as cervejas de antigamente, utilizando apenas ingredientes que agregam sabor à cerveja, independente do custo adicional. E mesmo que um estilo seja difícil de fazer, e seu custo elevado, estas cervejarias*** estarão dispostas a oferecê-las para os seus consumidores, que receberão a novidade com extrema alegria. Qual a diferença entre cervejas artesanais e especiais?
O processo de fabricação de cerveja é praticamente o mesmo quando feito em casa por um cervejeiro caseiro ou em uma grande cervejaria. O que diferencia não está no tamanho da fábrica, mas sim no cuidado na escolha dos ingredientes, na receita utilizada e no cuidado com a qualidade do processo. Cervejas feitas seguindo estes cuidados são sempre especiais, independente de onde ela é feita, mas no meio cervejeiro mundial existe um movimento que se chama "craft beer" (cerveja artesanal), termo utilizado para designar cervejas produzidas por cervejarias de pequeno porte que seguem a filosofia do movimento: produzir cerveja com os melhores ingredientes, sem introdução de adjuntos e produtos químicos, e nos mais variados estilos.
Algumas cervejarias de grande porte podem também oferecer cervejas estes termos, porém, não são cervejarias artesanais. De qualquer forma, as cervejas por elas produzidas não deixam de ser especiais.
Por fim, resta a todos nós a satisfação de descobrirmos que a cerveja pode tornar-se uma fonte inesgotável de surpresas, descobertas e prazeres os quais jamais poderíamos esperar daquelas "águas com gás amareladas" (para ser educado) que costumávamos beber.
Bem vindo ao verdadeiro Mundo da Cerveja.
Notas:
*Mas isto não é exclusividade do século XX! Um um dos mais antigos conjuntos de leis já encontrados, o Código de Hamurabi (1700 a.c.) já citava a punição para quem misturasse em suas cervejas ingredientes que a tornassem mais barata. E a lei de pureza da Baviera, a Reinheitsgebot de 1516, também proibia a utilização de adjuntos no lugar do malte. **Existem adjuntos que agregam sabor, mas isto é assunto para outro artigo. ***Claro que estas também buscam o lucro, mas de forma diferente.